UniSul Amplia Pesquisa com Cannabis: CBG, THCV e os Canabinoides do Futuro
A Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul) está expandindo suas fronteiras na pesquisa com cannabis medicinal. No primeiro semestre de 2026, o Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC) passará a investigar canabinoides menos conhecidos — CBG e THCV — com potencial para tratar TDAH, depressão e feridas diabéticas.
Se você ainda acha que cannabis medicinal é só CBD e THC, este post vai mudar sua perspectiva. A ciência brasileira está avançando, e Santa Catarina está na vanguarda.
Sumário
- Além do CBD e THC — Por que outros canabinoides importam
- O Que É CBG? — O "pai" de todos os canabinoides
- O Que É THCV? — O canabinoide que "acelera"
- As Novas Linhas de Pesquisa — TDAH, depressão e feridas crônicas
- Estudo de Enxaqueca: Resultados — Dados publicados
- Por Que Isso Importa — O impacto para pacientes
- Desafios Regulatórios — O caminho das pedras
- O Futuro — Santa Catarina no mapa da pesquisa
Além do CBD e THC
Durante décadas, a pesquisa com cannabis se concentrou em dois compostos: THC (o que "dá barato") e CBD (o que "acalma"). Isso foi fundamental para abrir caminho e reduzir estigmas.
Mas a planta cannabis contém mais de 100 canabinoides diferentes. E estamos apenas começando a entender o que cada um faz.
Segundo Rafael Mariano de Bitencourt, coordenador do LabNeC:
"Estamos começando a compreender melhor que a planta possui diversos outros fitocanabinoides biologicamente ativos. Moléculas como CBG, THCV e CBN já demonstram resultados interessantes em determinados quadros clínicos, especialmente quando o uso isolado ou combinado de THC e CBD não é suficiente."
O Que É CBG (Canabigerol)?
O CBG é frequentemente chamado de "molécula mãe" ou "célula-tronco" dos canabinoides. Isso porque, na planta jovem, o CBG-A (sua forma ácida) é o precursor que se transforma em THC, CBD e outros compostos conforme a planta amadurece.
Características do CBG:
- Não é psicoativo — não causa "barato"
- Presente em baixas concentrações — tipicamente menos de 1% na planta madura
- Mecanismo de ação diferente — interage com receptores CB1 e CB2 de forma única
Potencial Terapêutico (em estudo):
- Propriedades antibacterianas
- Efeitos neuroprotetores
- Potencial anti-inflamatório
- Possível auxílio em condições gastrointestinais
O Que É THCV (Tetrahidrocanabivarina)?
O THCV é o primo "energético" do THC. Estruturalmente similar, mas com efeitos distintos.
Características do THCV:
- Psicoativo em doses altas — mas com efeito mais curto e "limpo"
- Em doses baixas — pode bloquear alguns efeitos do THC
- Raro na maioria das strains — mais comum em genéticas africanas
Potencial Terapêutico (em estudo):
- Supressão de apetite — ao contrário do THC, pode reduzir a fome
- Regulação glicêmica — interesse para diabetes tipo 2
- Energia e foco — diferente do efeito sedativo de outros canabinoides
- Potencial para TDAH — uma das linhas de pesquisa da UniSul
As Novas Linhas de Pesquisa da UniSul
O LabNeC está expandindo para três frentes principais:
1. TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)
Por que THCV? O perfil "energizante" e focado do THCV pode oferecer uma alternativa aos estimulantes tradicionais (Ritalina, Venvanse) que muitos pacientes não toleram bem.
2. Depressão
O laboratório já pesquisa THC e CBD para depressão. Agora, CBG entra na equação. A hipótese é que a combinação de canabinoides pode ser mais eficaz que compostos isolados — o chamado "efeito entourage".
3. Feridas Crônicas em Diabéticos
Esta linha nasceu de uma parceria inovadora. Um dos pesquisadores é um enfermeiro paraibano que trabalha diretamente com feridas crônicas. A pesquisa será realizada no território onde ele atua, levando a universidade até populações vulneráveis.
O CBG é o candidato aqui, devido às suas propriedades antibacterianas e anti-inflamatórias potenciais.
Estudo de Enxaqueca: Os Resultados
Enquanto as novas linhas estão começando, a UniSul já publicou resultados concretos sobre cannabis e enxaqueca.
Metodologia
- Pacientes com enxaqueca crônica ou episódica
- Protocolo clínico estruturado
- Monitoramento médico contínuo
- Publicação na revista científica internacional Scilight
O Que Foi Medido:
- Frequência mensal das crises
- Intensidade da dor (escala analógica)
- Duração dos episódios
- Uso de medicamentos convencionais
- Impacto funcional na rotina
Resultados:
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Frequência de crises | ⬇️ Redução significativa |
| Intensidade da dor | ⬇️ Diminuição |
| Uso de analgésicos/triptanos | ⬇️ Redução |
| Qualidade de vida | ⬆️ Melhora |
Em parte dos pacientes, a redução no número mensal de crises ultrapassou 50% — índice considerado clinicamente relevante em protocolos de tratamento de cefaleias.
Perfil de Segurança:
Efeitos adversos leves e manejáveis quando presentes. Os pesquisadores destacam que canabinoides apresentam menos efeitos colaterais que medicamentos convencionais como antidepressivos, antipsicóticos e analgésicos potentes.
Por Que Isso Importa Para Pacientes
1. Mais Opções Terapêuticas
Se CBD não funcionou para você, talvez a resposta esteja em outro canabinoide. A pesquisa com CBG e THCV abre novas possibilidades.
2. Tratamento Personalizado
"O uso de Cannabis medicinal exige ajustes cuidadosos de dose, composição e acompanhamento contínuo, favorecendo uma abordagem personalizada e centrada no paciente."
Isso significa: não é "one size fits all". É medicina sob medida.
3. Evidências Nacionais
Dados produzidos no Brasil, com pacientes brasileiros, nas condições do nosso sistema de saúde. Isso fortalece pedidos de incorporação no SUS e atualização de protocolos clínicos.
Desafios Regulatórios
Conduzir pesquisa com cannabis no Brasil ainda é difícil:
- Adequação às normas da ANVISA — burocracia significativa
- Aprovação por Comitês de Ética — processo demorado
- Rastreabilidade dos produtos — exigência de padronização
- Garantia de segurança — monitoramento contínuo obrigatório
As parcerias com associações como Santa Cannabis e Cannabis Sem Fronteiras são fundamentais — elas fornecem os insumos para os testes.
O Futuro: Santa Catarina no Mapa
Com a expansão das pesquisas, a UniSul consolida Santa Catarina como polo científico de cannabis medicinal no Sul do Brasil.
Próximas Frentes:
- Dor crônica
- Distúrbios do sono
- Transtornos neurológicos
- Condições psiquiátricas
A Visão de Longo Prazo:
"Embora mudanças em políticas públicas sejam processos lentos, pesquisas bem conduzidas ajudam a construir um caminho baseado em evidências, responsabilidade e compromisso com a saúde da população brasileira."
Conclusão
A UniSul está fazendo o que poucos centros no Brasil fazem: pesquisa clínica séria com canabinoides além do óbvio.
CBG e THCV não são modismos. São moléculas com perfis farmacológicos distintos que podem ajudar pacientes para quem CBD e THC não funcionaram.
Se você é paciente, profissional de saúde ou simplesmente curioso: fique de olho. A próxima revolução da cannabis medicinal pode não vir do THC nem do CBD — pode vir de compostos que você ainda nem conhece.
Referências
- Medicina S/A — UniSul amplia pesquisa com cannabis medicinal
- Smoke Buddies — Unisul comprova eficácia da cannabis no tratamento da enxaqueca
- Scilight — Publicação do estudo sobre enxaqueca
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